segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Ainda bem


Ainda que fume, ainda que choramingue e a sombra esfume;
É inteira pulsante, de coração, de oração, que horas...são?
Perde o tempo, o ônibus, deixa a cabeça pra trás.

Ainda que pálida, amarelada de tempo, roída de traças;
Nariz de bolinha, magrela e sem jeito.
É de peito e é de peito.

Ainda que rouca, ainda que louca;
Ainda que...
Ainda o quê?

sábado, 25 de agosto de 2012

Folie à deux


Subo as escadas pensando em algum jeito de me aliviar, o álcool nunca foi uma opção, sou fraca – pra esse tipo de coisa – aguento uma sequência bruta de socos no estômago, palavras duras, mas o álcool não me desce bem. Então sinto sede do desabafo que sai dos meus dedos numa folha em branco. Bobagem.
Me deparo com quatro ou cinco textos postados minutos antes que eu chegasse à conclusão do que seria meu alívio, muito melhores escritos que o meu. Palavra a palavra, conseguiam descrever de ponta a ponta a corda que sinto apertar em meu pescoço. Um até dizia o que eu só sei sentir e jamais saberia descrever caso alguém não o tivesse feito por mim ...ainda que eu não duvide que todos os acertos são mesmo feitos assim: quando a loucura nos vence de alguma forma.”
Loucura, é quem ocupa o seu lugar na cama, me diz pra chorar e depois me pede calma, consigo até ver uma semelhança - que logo passa -, porque ela nunca vai embora.
Mas não se preocupe, pode ser? Sou ainda uma garota que não tem com mais o que encher a mente. A sua tem setores de trabalho, bens pessoais, impostos, saúde, alimentação e família. A minha: balas de goma que você me dá, ver você no trabalho e você nos finais de semana com todos os seus dentes e cabelos e olhos que me fazem encher a cabeça com você a droga do tempo todo.
E seria cruel demais para mim lembrar agora que cheiro era aquele, que esquentou a curva onde o pescoço se transforma em ombro, um cheiro que só você poderia fazer existir em forma de suspiro. Era a saudade.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Réquiem



Naquele quarto onde sempre se estava ocupado demais tentado ser alguém que sorri - e ter tanta certeza de que, lá no fundo ou lá no topo, ainda há razão pra sorrir - já não sobrava tempo pra nenhuma outra obrigação.

Naquele quarto que olhava e não se via, e se via não acreditava no que estava sendo visto, já não dava pra sentir dor. Sentia-se qualquer coisa parecida com vaidade ou costume, mas não sentia medo, nem dor, só alguma coisa que
                                                                                    ela queria que fosse.
Naquele quarto onde tudo começou desconsertado, se clamava pelas escolhas acertadas e por suco de maçã.
Na cama era permitido orar, empunhando um rosário imaginário, pra que os lençóis - sujos de tantas outras paixões - não fossem aqueles mesmos que se manchavam de fumo queimado e filhos que escorriam pelas pernas.
                                               
Lá se contava até seis antes de pegar no sono e terminava-se a noite pensando em ter que amarar os sapatos na manhã seguinte e sobreviver.
                                                                                          - Sem medo.

terça-feira, 27 de março de 2012

Icterine


Carrego uma pressa aqui dentro, uma urgência. Um jeito sofisticado de endurecer, com requintes. O que faz a gente ficar assim é toda essa angústia de não querer chorar ou se sentir fraco. E olha só que coisa mais egoísta, péssima, monstruosa: ta todo mundo, o tempo todo, querendo ficar de pé, cara. Ta todo mundo só querendo ser feliz e sim, é assustador. Um pouco mais de duas décadas de convívio com essa coisa toda e ainda sufoco. Tem muita cabeça por aí que insiste em pensar que atraímos o que queremos, o que permitimos. Sinceramente, eu nunca permiti porra de coisa alguma que aconteceu de errado e olha, não foram poucas. Envelheci de tanto sentir sede de continuar aqui, sem nem um edema ou tinta borrada no canto dos olhos. Isso é só o medo de desacreditar das coisas, das pessoas, de alguns abraços. Apesar de todo o desafeto, afirmo que não gostaria de cobrar absolutamente nada...ainda me restaram três gostos na boca, três memórias e três tons favoritos de amarelo.
                                 É muito difícil ser completo.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Janeiro

Rezei, acendi vela e sai caminhando. Algo sempre me falta. Cruzei a avenida principal e anotei em um pedaço de papel uma frase que se apagava no muro já bem velho: “Ficar bem”, seja lá o que isso significa. Em uma vida com poucos anos e tantos murros na boca do estômago, chegar em casa e tirar os sapatos já é uma grande recompensa. Abrir os olhos e esperar por mais é costume chulo, não tem isso de criar expectativas. Cheguei até a tentar, mas estou sempre lá dentro e estar lá dentro é bom, porque traz de volta a vontade de viver uma vida que embriaga a quem demora pra dormir do outro lado, a cada estação do ano e depois desistir.

É quase triste o parar para observar o vão que carrego, mas é bonito. Acredite.

A secura que trago das ruas é mero detalhe, tem sempre um brilho na retina que serve de disfarce e é assim que pretendo seguir: sem pudor e sem segredos.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Pulp

Ela entrou no vagão e eu já estava lá sentado, no banco ao lado. Isso é um dos aspectos que facilita muito pra quem tem pressa para agir, proximidade. Eu havia sentado estrategicamente há cinco passos da porta, assim que passasse por ela ninguém jamais conseguiria me alcançar. Ela sentou, abriu um livro de capa tão amarela que quase me cegou, com quatro letras grandes em vermelho coca-cola que formavam o título. Desviei o olhar de lá para seu rosto, tinha a pele rosada de maquiagem gasta e leve e uma minúscula pinta bem no centro da bochecha esquerda. Seus olhos percorriam as páginas com intervalos insistentes para ver as estações, assim que o freio chacoalhava o resto dos passageiros.
Eu não tirava os olhos dela, dei-lhe até um nome que não me lembro mais. Seus braços eram tão fininhos e curtos que davam a impressão de que podiam quebrar a qualquer momento e jamais teriam força pra tentar segurar a bolsa que repousava livre sobre as pernas, e que estaria comigo na próxima parada. Eu não tirava os olhos dela, os cabelos escapavam de trás das orelhas e lhe cobriam a visão vez ou outra. Sua boca era pequena demais pra ter chupado qualquer coisa que não fosse um pirulito de criança, seu nariz com certeza teria sido desenhado por um cirurgião fodido se não fosse a estampa em sua cara, denunciando que não teria nem um terço da grana pra pagar por isso.
Virava as páginas, olhava para fora do vagão e voltava a ler. Nem sequer notou que eu estava alí, tão próximo que dava pra me sentir respirar. Sequer me olhou uma só vez! A próxima estação era ideal, a escadaria estava à minha espera bem de frente à porta...Era só sair correndo, com a bolsa, o celular, o livro e tudo. Mas eu não tirava os olhos dela e então ela fechou o livro, agarrou a bolsa e deu três passos até a porta. Nunca mais a vi, a não ser no fundo dos copos com Montilla que bebo todas as noites antes de cair no sono.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Cold Turkey



O tempo que leva é mais ou menos a duração de um frasco de shampoo, daqueles caros, mas que você não gosta muito de usar porque não deixa seus cabelos perfumados, com cheiro de maçã verde.
Tragédias não têm medidas, não precisam de intervalos para acontecer. Simplesmente ocorrem e surpreendem quem ousa estar em volta - ninguém escolhe sentir saudades, a menos que isso seja o melhor a se fazer, para poder lembrar de coisas boas - Tem gente que só se sente vivo assim, ganhando pra depois perder, ensinando coisas da pior forma. E aprendendo também. É desse jeito que se sente mais humano, mais dolorido...É dessa forma que se ensina a amar ou a tomar cuidado com essa coisa toda.
Mas daí a gente continua vivo, desejando de longe toda a felicidade, saúde e paz. E assim a gente sente que talvez possa encontrar a nossa também.
Particularmente, gosto de guardar cheiros na memória, de rasgar com os dentes pequenos pedaços de plástico, ver cair pontinhos brancos que separam sonhos. E continuar a viver.